Textos

MÁRCIA BRAGA: DA VIDA INTEIRA

Por Paula Ramos*

Um dia, ao tirar a meia-calça, ela percebeu que a malha havia retido formas do seu corpo. Observando aquela estrutura no espaço, braços estendidos, quis mantê-la. Para tanto, era necessário dar matéria àquele invólucro, preenchê-lo uma vez mais. Olhou em volta, pegou um travesseiro, abriu-o e, com a espuma que aninhava seu sono, recheou a meia-calça, criando um novo corpo, que logo receberia a pele da cerâmica.

Tudo, no processo de Márcia Braga, parte de experiências íntimas, particulares, do seu cotidiano. Assim como tudo, em sua obra e inquietações, é, como ela mesma diz, “da vida inteira”. Nascida e criada em Santo Ângelo, Márcia, desde pequena, acompanhava a mãe nos mais variados cursos de artesanato e trabalhos manuais: tricô, crochê, bordado, biscuit. Sua função, em meio a botões de vários tamanhos e cores, era “escolher os olhos” dos bonecos, dos seres que Dona Maria José criava. Nos cursos de confeitaria e decoração de bolos, lá estava a menina novamente. E o desafio, dessa vez, era não apenas “não comer”, mas “não tocar” nos doces e tortas antes da hora. Também gostava de brincar de restaurante e se lembra, com carinho, da “rua do lazer”, quando a passagem na qual morava era fechada para carros, transformando-se num grande espaço para brincadeiras, práticas de esportes e confraternização entre crianças e adultos. A própria artista reconhece que, dos trabalhos em cerâmica, passando pela relação com a culinária e chegando aos projetos Vizinhança e Café na Calçada, dos quais é idealizadora, tudo está lá, na infância. Márcia, porém, resolveu algumas pequenas frustrações da meninice: seus biscoitos devem ser comidos; suas obras devem ser tocadas.

Essa vívida interação, a artista busca proporcionar tanto ao espectador, como a ela mesma. Trabalhando com cerâmica, Márcia encontrou no bordado uma forma de flexibilizar seu processo. “A cerâmica tem essa coisa: vai para o forno e, quando sai, é aquilo que tu tens; tá pronta. E essa ideia de coisa concluída me dava arrepio. Ora, eu falo contigo hoje, a gente troca uma ideia e, amanhã, eu posso ter mudado de opinião… Então, eu queria produzir algo que tivesse essa maleabilidade, que eu pudesse transfigurar. E o bordado me deu isso.” Para a artista, quando as centenas de peças seriadas, filetes, círculos e esferas em argila saem do forno, não é o fim, mas o começo. Agrupando e costurando esses fragmentos sobre as meias-calças preenchidas com espumas, ela encorpa as esculturas e cria superfícies almofadadas e flexíveis, colocando no mundo suas figuras quiméricas, talvez seres marinhos, anêmonas e poríferos. Eles habitam, em um primeiro momento, seu admirável caderno de desenho. São páginas e páginas com esboços, anotações, detalhes explicativos sobre encaixes e sistemas construtivos. Quando Márcia, finalmente, resolve dar-lhes tridimensionalidade, sabe como operar, como tornar reais suas invenções.

Num desdobramento de sua primeira individual, Tactilis, apresentada em 2013 no StudioClio e agraciada com o Prêmio Açorianos – Destaque em Cerêmica, as esculturas atuais também clamam o toque. Entretanto, tensionando vários limites, cresceram: em tamanho, peso e presença no espaço. Também receberam outros materiais, como lã, aviamentos, transparências e esmalte para unhas, proporcionando não somente novas dimensões tácteis, mas visuais e mesmo sonoras. No jogo entre leveza e gravidade ou no farfalhar das incontáveis peças que compõem cada uma de suas obras, a cerâmica revela suas possibilidades. Por fim, mas não menos importante, as cores, que fortalecem a sensação de uma fauna exótica e fantástica.

Produzidos nos últimos dois anos, os desenhos e as esculturas exibidos no galpão do Centro Cultural Vila Flores remetem a um universo particular, de sonho. E o “corpo da matéria” desses seres, como o título bem assinala, também já foi da artista. Afinal, cada fragmento partiu do seu toque e ação, do contato do seu corpo com as meias, das suas mãos com o barro. Cada fragmento, mínimo que seja, partiu de sua vivência.

*Crítica de arte, professora e pesquisadora do Instituto de Artes/UFRGS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s